A soberania é o conceito que alicerça o Estado nação. Quando a estratégia de um Estado compromete a existência da sua própria soberania, torna-se por mais evidente a incompetência das elites governantes. A Geórgia é um exemplo claro de péssimo planeamento estratégico, com consequências de momento desastrosas e a ainda desconhecidas a médio prazo.
A Geórgia ao aproveitar a máxima de Clausewitz – a guerra é a continuação da política por outros meios – para a consecução dos seus objectivos políticos, não determinou de forma adequada os interesses e a reacção da potência regional, ou seja, a Rússia.
A última, por sua vez, deixou bem claro à sociedade internacional, leia-se Estados Unidos, que não tolerará perder a sua influência no Cáucaso e também na Europa do Leste. Perder influência significa um vazio de ambição, nos interesses e no poder, o que, per se, é incompatível com a estratégia de uma grande potência inserida numa sociedade internacional, seja qual for a sua estratégia.
Para muitos, pode parecer que esta crise tem algo de novo. Porém, lamento informar que nada disto é novidade. Aliás, muitos aspectos desta crise podem ser explicados pelo discurso dos realistas. Inclusive, a intervenção russa a favor das províncias separatistas, pode ter explicação à luz da corrente idealista segundo uma perspectiva de segurança colectiva. Admito, porém, que esta última hipótese está sujeita a discussão (as províncias separatistas não são Estados, mas o Kosovo também não o era 1999…).
O futuro é desconhecido e incerto, todavia, os interesses das grandes potências com certeza determinarão de forma decisiva a futura sequência de eventos na região. Numa altura em que a Europa e Estados Unidos ainda se encontram concentrados no combate ao terrorismo, a diplomacia será com certeza o instrumento determinante para a resolução desta crise. Por seu lado, a Rússia continuará a impor ao mundo a sua influência política e o seu prestígio de grande potência, no entanto, acredito que não terá capacidade de se opor ao desenvolvimento dos grandes espaços regionais.
A Geórgia, esse Estado que arrisca a própria soberania, mais tarde ou mais cedo acabará por integrar a UE e a NATO.
ligustro a 15 de Agosto de 2008 às 23:57

-Concordo com a quase totalidade da análise, tenho apenas dúvidas em relação ao último parágrafo, mais até em relação á UE do que á NATO. O resto do comentário vem na sua essência ao encontro do que defendi nos posts "Hipocrisia internacional".

Erro de cálculo ou talvez não. Segundo o José Milhazes , que conhece a região, teria sido simples cortar a entrada dos russos na Ossétia . Aliás, começa-se a perceber que a desculpa dada para a ocupação é esfarrapada, porque não mostram vontade de se retirar apesar das salvaguardas estarem tomadas.
Pode ser esquisito que o monstro ainda mexa, mas a Alemanha também precisou da 2ª guerra.
MJP a 16 de Agosto de 2008 às 03:11