As médias não se alteração por decreto, mas em função da oferta e da procura. Aberração é pensar-se que o Estado tem como missão garantir que todos sigam a sua vocação.
E um aluno com média de 10 ter que ir estudar Direito no estrangeiro para seguir a sua vocação não é uma aberração???
-Obviamente que sim. Mas esse tem hipótese de ficar por cá numa Univ privada.
Não será obrigado a saír do país... Conheço efectivamente mais pessoas que ingressaram noutros cursos e, desta forma, alargaram os seus conhecimentos e no ano (ou anos) seguinte(s) continuaram a tentar medicina até entrar e pessoas que permaneceram um ano a melhorar notas de secundário, do que pessoas que foram para espanha ou república checa (digamos que nem toda a gente poderá paga-lo, tal como nem toda a gente poderá pagar uma faculdade privada). Abir uma faculdade de medicina privada nao iria assegurar diminuição significativa da média de ingresso - ora se continua a haver muita procura mesmo com 100 vagas nunca desceria de 17. Para além disso são muitos os factores a avaliar antes de tomar tal decisão. Uma faculdade privada terá, como objectivo máximo o lucro. Uma faculdade privada terá de ter académicos de qualidade dispostos a leccionar, acordos com hospitais (públicos, já que ainda não ocorre ensino nos privados - por razões já explicadas no outro comentário), condições logísticas. E de certa forma iria criar uma pequena injustiça social: sujeito de média 17.7 que não entra no público e não pode pagar privado (propinas no público são 1024€, o que dá uma mensalidade de cerca de 114€, imagine então a mensalidade de um privado, adicione livros - ciente de que em média cada um custa 50€, havendo alguns que excedem os 100€ - transportes e refeições e pense que a acção social nada tem a ver com faculdades privadas) e sujeito de média 17,4 que poderá ingressar num privado. Acontece possivelmente em vários cursos. Mas se o podermos evitar, criando antes vagas públicas porque não?
E quem garante que um sujeito que vá para o estrangeiro o faça por vocação? Dificilmente alguém conhece o que é ser médico (ou qualquer outra coisa) antes de entrar no curso (e passar lá alguns anos). Da mesma forma que quem garante que um sujeito que entre o faça por vocação? O que é e como se avalia vocação?... As médias parecem ainda um critério algo justo perante todos os outros, bastante mais subjectivos, que o poderiam substituir (lembro que 50% da média de entrada é referente aos exames nacionais, idênticos para todos os estudantes - excepto na UBI, em que o peso é menor)
-Concordo com muitas das afirmações, a primeira das quais e mais importante, ser necessário assegurar a qualidade dos cursos. Mas defendo que existam mais formados que lugares disponiveis, promovendo concorrência, alguns médicos que "fazem fretes", ou não são "suficientemente profissionais", podem e devem ser substituidos, mas não temos disponibilidade de recrutamento, nem legislação que o permita, esse é a meu ver o problema. Tal como defende, muitos ficam excluidos da medicina, podendo optar por outros cursos, tal como defendo, são médicos quem ficam excluidos, optando por outras profissões que naturalmente iriam surgir, desde logo na ind farmacêutica, ensino. Como sabe existe muito duplo e triplo emprego no sector.
Perfeitamente, sem dúvida que deveria deixar de existir tal proteccionismo para com a classe médica. Competição, na ausência de objectivos ou valores próprios, afigura-se-me como uma boa forma de encontrar excelência e impedir o ócio. Contudo, a criação de universidades em locais como o algarve e trás os montes não será talvez uma boa solução... Uma boa prática médica exige uma boa base teórica sem a qual não é possível praticar o que quer que seja , constante actualização, mas também ensino prático e contacto com o maior número de casos possível, frequentes e raros. Efectivamente esses casos, mesmo que surjam em trás os montes ou no algarve são na sua maioria transferidos e tratados em hospitais ditos centrais - porto, coimbra e lisboa. Considero ainda problemático a falta de académicos nessas regiões - claro que seriam possíveis acordos que permitissem deslocações semanais de alguns docentes porto-trás os montes ou lisboa-algarve, mas teriam sempre de ser pagas (tal como a faculdade de medicina de lisboa financiava viagens de docentes para a faculdade de medicina da universidade da madeira por ausência de qualificados interessados na regiao), com dinheiro público. Talvez não seja uma medida tão proveitosa quanto isso no final de contas.
-Completamente de acordo, quando se tomam decisões devem ser analisadas todas as implicações, por questão de princípio nós poderemos ser a favor de uma descentralização, e verificar após estudo da mesma ser impraticável.
A média elevada tem a ver apenas com a elevada procura do curso de medicina, nada mais.
E porquê: emprego garantido, prestígio social e algumns com vocação.
Como a procura é muita só as melhores médias lá chegam - é uma maneira de selecionar como qualquer outra e talvez mais justa que as "entrevistas".
Neste momento as faculdades existentes (cinco mias duas) já estão a trabalhar acima das suas possibilidades com alunos a terem aulas teóricas sentados no chão por falta de lugares e aulas práticas de laboratório com poucos docentes. As enfermarias estão cheias de alunos que se acotovelam para fazer o exame físico! Existem limites!
Vale a pena ter médicos sem boa formação? Depois existe ainda mais quatro anos no mínimo para a especialidade, seis no máximo. Demora muito tempo a formação...
E outro mito : a Ordem dos Médicos não tem nada a ver com o número de vagas! Existe muita confusão e ideias pré-concebidas na cabeça das pessoas.
Um estudante de medicina
Jose a 25 de Julho de 2008 às 10:15
-Como é evidente se forem formados mais médicos apenas os melhores serão recrutados. Ninguém quer cursos faceis para formar mediocres, mas alunos de 17 e 18 não são mediocres, vão para Espanha, formam-se, e voltam. Não poderiam ser formados por cá? O ensino de medicina tem de ser obrigatoriamente público? Penso que não, até porque emprego garantido, prestígio social e um bom ordenado serão suficientes para existirem interessados em pagar a formação.
A questão é aumentar as vagas sem aumentar as condições nas faculdades. A universidade do algarve é, talvez, uma excepção em termos logísticos, bem como a universidade do minho e da beira interior.Contudo questiono-me se será possível disponibilizar académicos e clínicos de qualidade suficientes no algarve (considerando que se deseja que o curso seja frequentado por 150 alunos por ano o número ideal de clínicos por ano seria 75...), bem como uma multiplicidade de casos para que os alunos possam contactar não só com as patologias frequentes mas também com casos mais raros, ditos mais complicados. É precisamente este o problema quando se propõe fazer o internato médico em hospitais privados, que variedade de patologias existe num local que não serve uma fatia muito larga da população? - e se o faz (por ter acordos)fá-lo apenas para patologias banais e pouco dispendiosas. Quantas pessoas tratam neoplasias no privado? E igualmente questiono, sendo que o hospital de faro não possui uma série de serviços como hematologia, endocrinologia, neurocirurgia, cirurgia cardiotoracica, entre outros, será que a formação neste hospital será adequada?
Como candidata a medicina há uns anos a média era efectivamente algo que me preocupava. Contudo digo, 17,5 não é efectivamente uma média particularmente difícil de obter, especialmente agora que o aluno poderá escolher entrar com os exames em que teve melhor nota - até com matemática. Digo que a capacidade de trabalho (e algum "sacrifício") desenvolvida para obter uma média de 18,5 ou 19 é necessária (ou desejável) para conseguir vingar no curso. Este ano no final do primeiro semestre 10% dos alunos de primeiro ano da faculdade de medicina de lisboa tinham desistido, o que é inédito. Para além disso existem também pessoas que efectivamente tiveram média mas como é que se avalia a capacidade humana? Como é que se avaliam intenções e objectivos? Existem muitos colegas meus competentes, em quem confiaria a minha saúde. Existem também colegas que não sei como um dia irão exercer uma profissão de tal responsabilidade. Medicina não é só um curso para nós, neglienciar a formação não significa ficar no desemprego por terminar com média de 11 mas ir para medicina geral e familiar (especialidade com média - de exame de especialidade - mais baixa), cirurgia geral ou medicina interna, 3 especialidades que requereriam extrema competência. Era urgente,sim,remodelar as faculdades já existentes, avaliar a forma como é ensinada a medicina e melhorá-la para que não existiam apenas 20, 50 ou 70% de médicos competentes, mas 100%.
Aumentar as vagas só não é solução se depois os alunos terão de assistir as aulas em pé ou sentados no chão, se não existem condições para albergar tanta gente em aulas práticas, se os hospitais não recebem mais alunos, se no hospital-escola cada médico tem de ensinar 8-10 alunos, se não mais (imagine ser atendido por 9 pessoas a questioná-lo sobre os seus dados médicos, a discutir o seu caso e ocasionalmente cada um deles com curiosidade de palpar o seu fígado, auscultá-lo, palpar o seu aneurisma da aorta ou a sua próstata com hipertrofia benigna - por toque rectal). Percebo que seja desagradável para os pacientes como o é para nós. Manter a integridade e dignidade do paciente vs perder uma oportunidade de contactar com mais um caso que trará ferramentas futuras.
Criar mais vagas pareceu-me um dia quando era eu quem fazia os exames nacionais, solução. Poderá ainda parecer quando somos no SNS atendidos por médicos espanhóis. Mas só o será quando se assegurar que cada pessoa que entra terá uma formação de qualidade, com condições logísticas e técnicas, leccionada por pessoas dedicadas e competentes. Só será solução quando abrirem mais vagas de internato.
Encharcar o mercado de médicos, bem ou mal formados (infelizmente hão de existir sempre em qualquer profissão) poderá ter contudo uma vantagem: criar competição que despolete o ímpeto de ser efectivamente competente. Mas abrir vagas levianamente não é(e percebo-o após ter de assistir a aulas no chão,partilhar dissecções com mais 18 pessoas,ver aulas práticas transformadas em teóricas por falta de condições,ver 10 pessoas em torno de um doente assustado a discutir medicina,não conscientes do que isso poderia causar-lhe) solução.
A questão é aumentar as vagas sem aumentar as condições nas faculdades
-Concordo. Sem condições dificilmente poderão ser formados bons profissionais, pelo menos a aprendizagem será dificultada.
-Quanto ás médias elas têm muito que se lhe diga, em Portugal falamos de notas acima de 18, noutros países tal seria impensavel. Depende dos critérios de avaliação, tenho um amigo, médico, que após parte do estágio num país europeu, trouxe uma carta com avaliação para lhe atribuirem nota em Portugal, porque uma boa nota segundo padrões locais significaria ficar mal classificado na especialidade.
Contudo a média não é 18 (embora no ano passado exactamente 540 estudantes que se candidataram a medicina tenham tido média superior a 18). 17,83, foi a média do último candidato e acredite, entre 17,83 e 18 existem 150 pessoas no país (que se candidataram a medicina) - dados oficiais.
Contudo não é uma média assim tão difícil de obter e de qualquer modo em qualquer profissão se deveria aspirar à excelência. Não nos esqueçamos que a educação também tem vindo a decaír e as exigências são cada vez menos. Foram menores para mim e colegas que para as pessoas nos 10 anos anteriores (os ministros costumam gostar de apresentar índices de sucesso elevados a todo o custo, mesmo que implique baixar o grau de exigência...). E também eu pensava que a média era hediondamente alta comparando a outros países europeus. Foi apenas quando conheci estudantes de medicina espanhóis que me apercebi: a média em espanha é também extremamente alta. Simplesmente eles usam uma escala de 0-10 em que 9 é equiparável a 19 (no grau de dificuldade de obtenção). A média ronda portanto os 8,5. Contudo as notas portuguesas são convertidas apenas por uma regra de 3 simples em que 8,5 (nota muito elevada), equivale 17. Não tão difícil de obter.
- "Depende dos critérios de avaliação, tenho um amigo, médico, que após parte do estágio num país europeu, trouxe uma carta com avaliação para lhe atribuirem nota em Portugal, porque uma boa nota segundo padrões locais significaria ficar mal classificado na especialidade."
Penso que isso nada tem a ver com critérios de entrada no curso... Subjectividade há de haver sempre, tentemos então dissolvê-la. Com exames nacionais por exemplo.
Subjectividade há de haver sempre, tentemos então dissolvê-la. Com exames nacionais por exemplo.
-Já o defendo há muito, pelo menos no 9º ano e 12º ano. Claro que o ensino superior é apenas o topo duma pirâmide mal alicerçada, nem poderiam ser criadas as tais vagas que defendo amanhã, mas permitir a abertura de cursos privados, com regras, que apenas e se cumpridas poderiam exisitr. Julgo que a Univ Católica poderia estar interessada, não sei se mais alguma. Deu-me como comparação notas de Espanha, falemos dos países baixos, nórdicos ou anglo-saxónicos. Tive uma professora no secundário que dificilmente classificava alguém num teste acima de 12, 13, no final do periodo convertia as notas para não prejudicar os seus alunos, era garantido uma subida mínima de 5, 6 valores.
«alunos de 17 e 18 não são mediocres»
Há de tudo. Dou aulas numa Faculdade de Medicina e sei bem do que falo.